O Natal era o de 2005. O primeiro, até então em 27 anos, que eu passava longe de minha família. E quando eu digo longe, é longe de verdade, a um continente de distância. Eles estavam em Mogi das Cruzes e eu estava em Providence, nos Estados Unidos. Enquanto eu preparava a ceia com meus amigos – um grupo de brasileiros que conheci por lá e que acabou se tornando minha referência familiar ao longo daquele ano -, a saudade apertava e a as lembranças passavam como um cinema pela minha mente.
Lembrei de um Natal quando meu avô resolveu fazer todos os nossos presentes. Antes de se tornar advogado, meu avô chegou a trabalhar como carpinteiro. E isso acabou, anos depois, se tornando um de seus hobbies. Neste ano, meu irmão ganhou uma mesa de estudos, com luzes que piscavam (eram os faróis de um velho Opala vermelho que meu avô teve) e toca-fitas. Tinha até uma bússola, apesar de a mesa nunca ter saído do lugar.
Um de meus primos ganhou um robô gigante, feito de madeira e com rodinhas nos pés. Era vermelho, com os braços feito de tubos de plástico e mãos feitas de potes de iogurte. A cabeça era um balde. E, apesar da descrição, ele era muito legal. Outro primo ganhou um jato, também feito de madeira.
Eu ganhei um bercinho e um armarinho para minha boneca, que ficava de lado na maior parte do tempo, mas isso é assunto para outra crônica.
Depois, lembrei de quando, todos os netos um pouco mais velhos, se reuniam na manhã do dia 24 para ajudar a minha avó a arrumar a casa para a festa. Era um tal de empilhar e desempilhar cadeiras, levar isso e aquilo para cima e para baixo...
O primeiro Natal sem o meu avô foi um esforço coletivo para não deixar a peteca cair. Como esta data sempre foi sinônimo de família reunida, a falta de um membro era motivo para buscar alguma novidade para, ao menos aparentemente, fazer todos sorrirem. E minha tia se saiu com a idéia do coral familiar. Sem ensaios, sem afinação, sem repertório... Quem sabe faz ao vivo, e lá fomos nós, cantando "Noite Feliz"...
A idéia da cantoria pareceu ter agradado e, anos depois, o amigo-secreto foi cantado. Teríamos de descrever a pessoa que sorteamos com uma música. Poderia ser autoral, adaptação, qualquer coisa. E isso abriu espaço para muitas piadas.
O humor, graças a Deus, sempre foi predominante nas festas de Natal de minha família. Não me lembro de nenhum estresse, desses que a gente ouve falar ou vê em filmes americanos. Mas, naquele ano de 2005, eu estava lá, entre os americanos. E, graças à diferença do fuso horário, consegui me confraternizar com meus amigos e ligar para a família.
Mesmo longe, eu participei do amigo-secreto. Próximo da meia-noite brasileira, liguei em casa. Com muita dificuldade, porque conseguir completar uma ligação internacional numa noite de Natal é praticamente uma missão impossível. Depois de devidamente conectada, começamos o amigo-secreto. E, como se não fosse estranho o suficiente acompanhar a festa via telefone, ainda "presenciei" um dos meus tios confessando que tirou ele mesmo naquele ano. Sem contar para ninguém, comprou para si um presente que sempre quis ganhar do Papai Noel: um carrinho por controle-remoto. E nos proporcionou muitas gargalhadas.
Este ano, ainda bem, a família estará completa novamente. Feliz Natal a todos. |