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  • CRÔNICA - CHICO ORNELLAS
  • Namorando no táxi
    1960 – No Ginásio de Esportes do União F.C., na Rua Casarejos, a equipe de futebol de salão da Escola Industrial Presidente Vargas de 1960 se perfila para a posteridade.

    Meu caro Lucas

    É claro, você vai se lembrar dele, daquele nosso amigo da adolescência, muito animado e alegre – o Netinho. Proativo como só ele, era quem propunha os melhores programas e sugeria as melhores festas; também fazia sucesso com as garotas. NA escola não se destacava pelas notas, mas nenhum dos professores o ignorava ou dele desgostava.

    As encruzilhadas da vida, as mesmas que aproximaram tanto nós dois, o afastaram da turma. Trilhou outros caminhos, incursionou pelo comércio e pela assessoria de políticos, morou no exterior por um tempo e dele fiquei bons anos sem ouvir falar. Mas não é que, há alguns meses, aniversário de uma amiga, o encontro no jantar em São Paulo. Ficamos o tempo todo conversando, até nos desculpamos com o casal anfitrião quando nos despedimos; a conversa seguiu ainda no elevador e persistiu junto aos carros parados na rua.

    Foi nessa noite que Netinho me fez um retrospecto de anos e anos de distanciamento, falou da família, dos negócios, de conquistas e de derrotas. Mas uma passagem me ficou e é dela que lhe quero falar.

    Seu filho mais velho havia completado 18 anos e tinha carteira de motorista havia 20 dias, quando pediu o carro emprestado ao pai que o convenceu a optar por um táxi. Seria uma noite de despedida da turma do colegial e os rapazes e moças aproveitariam para comemorar também o ingresso em várias faculdades. "Você tem filhos e bem pode imaginar minha preocupação", disse-me o pai. "Seria o primeiro programa noturno dele com carro à disposição e eu gostaria, antes, de orientá-lo em alguma viagem ao sítio ou à nossa casa de praia – prepará-lo enfim".

    O filho concordou, tomou o táxi que foi apanhá-lo em casa e ficou até madrugada adentro no encontro com a turma. Passava das 3 da manhã quando o pai escutou um carro estacionar à frente de sua casa, em um bairro da zona Sul de São Paulo. Ouviu o motor parar e não escutou uma nova ignição; esperou bem 20 minutos, apurou os ouvidos e nada. Chovia muito e o pai desceu as escadas do sobrada e, sem acender nenhuma luz, foi pé ante pé olhar por uma fresta da cortina da sala o que se passava na rua.

    Viu um táxi de frota estacionado, luzes apagadas e, com a chuva, vidros embaçados. Chamou a mulher e mostrou-lhe a cena; os dois voltaram para o andar superior e, da janela de um dos quartos, ficaram a olhar o que ocorria. Pelo para-brisa dianteiro, menos enfumaçado, puderam ver dois vultos que se abraçavam dentro do carro. Os pais trocaram entre si olhares de surpresa, não se atreveram a nenhum comentário – só se olharam. Mais uma vista e já não identificavam duas pessoas; pareciam uma só naqueles bancos dianteiros de um táxi branco.

    O pai nosso foi ao computador, deu um Google na identificação da frota de táxi e ligou do celular; quando o atenderam, ele disse apenas:

    "Tenho aqui em frente à minha casa o táxi de número tal de sua frota e acredito que meu filho esteja nele, conversando com o motorista; vocês poderiam por favor confirmar a identidade do motorista para mim?"

    A atendente demorou alguns momentos que, para nosso amigo pareceram infinitos minutos; até vir com a resposta:

    "Confirmamos que o carro ao qual o senhor de refere pertence à nossa frota e cumpre um trajeto com destino ao endereço fornecido. Ele é dirigido pela nossa motorista Stella Dalva, aliás uma universitária que faz trabalhos esporádicos para a empresa".

    Netinho contou à esposa, deu-lhe um carinhoso beijo e os dois foram dormir em paz.

    Grande abraço do

    Chico

     

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