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  • CRÔNICA - CHICO ORNELLAS
  • Lembranças de aeroportos
    Foto: Arquivo Pessoal

    MÁRIO QUINTANA O Hotel Magestic (Porto Alegre) hoje: Casa de Cultura Mário Quintana, em homenagem ao escritor que os gaúchos veneram

    Meu bom amigo

    Eu nunca tive uma relação muito boa com aeroportos. Com aviões não há problemas. Mas as lembranças de aeroportos me têm sido lastimáveis. Talvez um trauma de infância. Eu tinha pouco mais de 5 anos quando um telefonema ao Hotel Califórnia, na Avenida Atlântica, nos levou direto para o Aeroporto Santos Dumont apanhar o primeiro Viscount da Vasp que partisse para São Paulo. Era janeiro de 1955 e estávamos todos nas férias de verão, costumeiramente passadas no Rio. Por todos, entenda-se: pai, mãe, irmão, eu e a babá Adelina. O telefonema de Mogi dava conta do falecimento de meu avô. Dá para imaginar o que passa na cabeça de um menino de 5 anos tirado das férias recém-iniciadas para voltar à sua Cidade. Ainda mais para encontrar o avô morto. Logo o avô das brincadeiras lúdicas, incapaz de um ar severo.

    Foram 30 ou 40 intermináveis minutos de espera no Santos Dumont. Mais de hora para chegar a Congonhas naquele turboélice de pás barulhentas e cabine não pressurizada. Em Congonhas já nos esperava o Gerevine, motorista de táxi que sempre nos atendia nas idas e vindas a São Paulo ou onde quer que fosse, para a viagem de quase 2 horas até Mogi, pela estrada velha São Paulo-Rio, escala na Penha, São Miguel, Itaquaquecetuba, Poá e Suzano. Tristes lembranças.

    Anos mais tarde, uma passagem desagradável em Porto Alegre: no aeroporto Salgado Filho, vindos de Eseiza, em Buenos Aires, fomos servidos por um motorista de táxi. Pedi-lhe que nos levasse ao Hotel Embaixador. Ele perguntou se havia reservas. Não, não as tinha feito e contou-nos, então, que o hotel estava lotado; que todos os hotéis da cidade estavam lotados e que só havia apartamentos disponíveis no Magestic. "Tudo bem, vamos para lá". O Magestic, no início dos anos 70, era uma decadente construção que em nada lembrava a imponência da época de sua construção, nos anos 30. Impossível ficar ali. A pé mesmo fomos para o Embaixador, duas quadras adiante e descobrimos que havia vagas suficientes para abrigar todos os passageiros do Caravele da Cruzeiro que nos trouxe da Argentina. Reencontrei-me com o Hotel Magestic no ano passado. Abriga agora a Casa de Cultura Mário Quintana, o imperdível poeta gaúcho que passou no hotel os últimos anos de sua vida. Lamentei, então, não ter aceitado a trama barata do motorista gaúcho.

    Mais alguns anos e mais uma experiência desagradável com aeroportos. Estava em Rothemburg, cidade medieval alemã nas cercanias da Floresta Negra. Acordei muito cedo para viajar 80 quilômetros em direção a Nuremberg, onde apanharia um voo para Frankfurt a tempo de tomar outro, às 13 horas, para Madri. Acordaram-me passava pouco das 4 da manhã. Cheguei a Nuremberg pouco depois das 5, para o voo que saia às 6. Ainda não tinha acordado direito quando entrei na área de embarque e dois soldados alemães que não precisavam da farda para se saber militares, indicaram-me um tablado de 70 centímetros. Subi. E eles me submeteram a uma revista constrangedora. Só descobri, já no avião, que havia ameaça de atentados contra o aeroporto da cidade que se tornou conhecida como palco do tribunal de guerra que condenou os remanescentes do nazismo.

    Na ocasião me veio à mente, de pronto, uma experiência vivida tempos antes, novamente no aeroporto de Congonhas. Eu voltava de Garça também em um Viscount, mas da FAB, que trazia o então ministro dos Transportes, Mário Andreazza. O avião só desceu porque era um voo oficial. O aeroporto estava interditado por causa do sequestro de um Electra da ponte aérea. Resultado: eu e os amigos jornalistas que estavam no mesmo avião fomos os únicos repórteres a acompanhar muito próximo a ação de um comando da FAB na retomada do Electra e que resultou na morte do sequestrador.

    Nada, entretanto, que se compare àqueles minutos enquanto um Boeing 747 da Lufthansa operava o pouso no aeroporto do Galeão, no Rio. Era 1989 e eu ia a Paris, incumbido de alguma reportagem sem importância. A família havia me deixado no aeroporto de Cumbica e, logo após a tripulação pedir o inefável "afivelem os cintos e retornem as poltronas à posição vertical", um outro aviso pelo sistema de som: "Pedimos ao senhor Francisco Ornellas que contate o chefe dos comissários logo após o pouso".

    O que eles poderiam querer comigo? Nada de bom, pensei e, de pronto, meu pensamento foi para notícias ruins e para a família que me havia deixado no aeroporto. Não era nada disso: tão logo o avião estacionou, procurei o chefe dos comissários e ele me convidou para aguardar o reabastecimento na sala vip do Galeão. Nunca, nunca amaldiçoei tanto um convite gentil como esse. Não gosto de salas vips, aquele cenário em que pessoas comuns se acham importantes.

    Só lembranças, nada mais. Além do mote que o tema me oferece para escrever-lhe.

    Um grande abraço do

    Chico

     

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