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Aparências

No andamento dos desfiles programados para as passarelas da São Paulo Fashion Week, as opiniões sobre sua realização são, no mínimo, curiosas. Na semana de moda paulista (por sinal a maior da América Latina), temos de tudo um pouco: grifes a apresentarem a "tendência" da temporada primavera-verão 2011, empresários a mapearem as "exigências" deste mercado, estilistas e fotógrafos assediando as "tops" do momento, gente preocupada com o cachê das modelos e gente (dona de pensamentos outros!!) que levou a sério, também, a oportunidade de se utilizar o evento para, mais uma vez, trazer à baila questões ligadas à sustentabilidade, tanto econômica quanto ambiental. A exemplo da edição passada, os cenários, feitos de papelão, foram modificados e reaproveitados e esta temporada faz uma campanha pelo uso racional da água no planeta.

Mas, felizmente, no mesmo evento, há, também, os que se preocupam com a importância de se firmar a identidade brasileira no modo de se vestir... A adequação da vestimenta tem sido motivo de muito debate, especialmente quando se refere à forma de se apresentar no ambiente de trabalho. No âmbito jurídico temos entendimentos diversos no tratamento de um mesmo assunto: há casos de indenização por danos morais concedida a funcionário que se dizia ofendido pelo superior hierárquico por sua forma de se vestir; pedidos de ressarcimento de despesas com vestuário e muitos outros casos oriundos da relação empregado-empregador. Devemos, entretanto, sempre ter em mente a razoabilidade e a concordância com os usos e bons costumes do lugar que estamos ou frequentamos.

A roupa tem seu surgimento atrelado à proteção do corpo. Mas, em nossa cultura os tecidos e as cores tomaram um rumo diverso e conseguem manter um fascínio tamanho capaz, até mesmo, de indicar a classe social a qual pertence quem os veste. Só que muitos se esquecem que nesta sociedade de aparências, o "parecer ter" está se sempre à frente do "ter". O "ser", coitado! É "lanterninha"...

Há alguns anos, a pesquisa de um estudante de pós-graduação tornou-se notícia na imprensa. Era sobre análise comportamental relacionada ao uso de uniformes. Numa das fases de seu trabalho, vestiu-se de "varredor" ("gari") no próprio campus de sua universidade. E qual não foi sua surpresa ao notar que nem era visto! A princípio seu objetivo era não ser reconhecido por seus amigos e professores ou por quem quer que o conhecesse naquele espaço frequentado quase que diariamente. Entretanto, "não ser visto", tornar-se "invisível" era uma reação verdadeiramente inesperada. Segundo ele, foram os piores dias de sua vida porque não era, sequer, percebido.

Em pleno mês das Festas Juninas, quando as vestes do "caipira" são fartamente satirizadas, é interessante comentar sobre esta questão. Quem busca conhecer a desintegração de uma das culturas mais autênticas de nosso Estado? As diferenças culturais e econômicas nos tornam tão distantes assim dos nossos pares na sociedade? Como temos visto a essência do outro?

E falando em trajes, há atores que só conseguem interpretar determinados personagens quando se vestem para tal desafio. Talvez pensem como um personagem de Clarice Lispector: "Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se e preferem a mediocridade!".

 

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    [20.jun.2010] Aparências
    [13.jun.2010] Um dedo de prosa...
    [06.jun.2010] Caleidoscópio

     

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