Um campo florido. Perfumado. Iluminado por um sol agradável de fim de tarde e bafejado por uma leve brisa.
Ali, ao nosso alcance, as rosas.
Oferecendo-se para serem admiradas na sua beleza, na elegância, pureza de formas e fragrância.
Há um impulso natural de colhê-las, tomá-las à mão, sentir o aveludado de suas pétalas, seu frescor, sorver seu perfume.
Mas há mais de uma rosa.
Há aquela tinta de vermelho puro, desdobrando pétalas vivas como o sangue, exalando aroma embriagador. Há outra, próxima, com os tons amarelados e alaranjados de um sol no poente, igualmente perfumada, pedindo olhares e carinho. E há outras, ao longe, lindas, mas com detalhes perdidos na distância.
Deixá-las compondo um quadro natural? E partirmos levando a imagem e a saudade?
Ou tomá-las nas mãos, sentindo que, pelo menos por momentos da vida, comporão conosco um novo desenho, sensações em simbiose?
E qual delas caberia nas mãos, no olhar mais carinhoso, no coração e na lembrança?
A forte e rubra? Ou a delicada, cor do sol? Ou outra, no caminho, que nos resolvesse a dúvida... ou a aumentasse?
Mas por que surgem momentos de dúvida sobre colhê-las ou não?
Fazem parte do nosso mundo. Podem nos dar momentos de embevecimento, de poesia, de interação total com a natureza...
Somos criaturas tornadas vivas e sensíveis por um mesmo escultor genial e único. Que nos inunda de possibilidades de admiração e escolha. E nos deixa com o ônus da opção...
Que flor?
Ou um ramalhete, um buquê?
Mas no amarfanhado de um buquê, a flor perderá sua individualidade, seus traços únicos. Fará parte de um outro desenho onde você não a encontrará mais para a admiração particular.
E voltamos à dúvida.
Se vamos colhê-la... qual delas?
Que cor, que desenho, que fragrância nos deliciará e comporá um momento mágico de amor eterno?
Sem nos esquecermos de que, no caminho que nos leva até a rosa, há espinhos. Que exigem cuidados.
E que a rosa, enquanto desabrocha para sua breve explosão de beleza total, exige, também, atenções, carinho.
Temos como protegê-las?... Acompanhá-las no desabrochar?... Merecemos essa dádiva da natureza?
Se temos consciência e sensibilidade para responder a essas questões, estendamos a mão e tomemos a rosa mais atraente aos nossos sentidos...
Os campos floridos assistirão, durante um breve tempo da vida na terra, a passagem de um homem apaixonado segurando uma rosa. Sua rosa.
Mauricio de Sousa
13 de janeiro de 2000