A interpretação do que é certo e do que é errado dança entre tempos e espaços desde que o mundo é mundo. Entretanto, o bom senso costumava apostar na capacidade humana de questionar que caminhos escolher na construção de um viver melhor. Assegurava, também, a maioria das respostas para crises sociais e de valores, sejam elas oriundas dos mais diversos povos e territórios do planeta. Hoje, quando lançamos um olhar mais cuidadoso sobre o mundo atual, enxergamos claramente que o bom senso está se cansando de toda essa história e tem confiado a tarefa à indiferença.
No Brasil, para qualquer área que olhemos, a indiferença sorri, sarcástica que é: "corrupção? Isso sempre existiu por aqui!" "Balas perdidas? Coloquem as crianças de diversas séries num só local, com duas horas de aula!" "Atendimento médico? Pode deixar a senhora neste corredor mesmo!" "Vôos atrasados?" Bem, mudemos de assunto...
A intensidade do ritmo da vida moderna também interferiu na percepção do que nos rodeia. E lá está a indiferença! Estamos alheios ao nosso próprio meio. O inverno, por exemplo, chegou tímido na semana passada. Sem alarde, sem sinais. Sem frio! Para que não haja exagero, digamos sem o frio que os mogianos temiam há apenas alguns anos atrás. Os agricultores que o digam! Era a época em que todo o Estado de São Paulo se voltava para nossos problemas com as geadas, extremamente comuns na região, tamanha a importância do "cinturão verde". O relacionamento entre o homem e a natureza não pode ser entregue às mãos da indiferença simplesmente porque todos somos parte do equilíbrio natural. As mudanças climáticas em toda a Terra têm causado enchentes, secas, furacões, incêndios florestais e outras conseqüências do aquecimento global que ninguém e nenhum lugar poderá se considerar "a salvo".
Nisso tudo, brilha a incansável disposição de alguns que insistem em fazer com que sua voz seja arrancada do escuro de um cenário dramático e trazida para a lembrança da existência de uma responsabilidade que deve ser por todos compartilhada. Por isso cantam, por isso escrevem, por isso gritam. E a despeito daqueles que afirmam que a luta com as palavras é a luta mais vã que possa haver, continuam. Porque sabem que as palavras aparentemente ininteligíveis que dizem no momento (fome, sede, morte) serão "sentidas na pele" num futuro mais próximo do que se pensa. E que vem chegando tão despercebido como o inverno que ora vem nos acordar... Que este amanhecer do ser humano seja breve. E tênue como o visto por Drummond: "Amanhecer: o mais antigo sinal de vida sobre a Terra./ Amanhecer: ainda o mais novo sinal de vida sobre a Terra./ Amanhecer e vida humana se entrelaçam na mesma luz."