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  • CRÔNICA - FERNANDO CATELAN

  • O último reduto

    1º Lugar no Concurso Natureza em Prosa & Verso Promovido Pela
    Academia Varginhense de Letras, Edições Alba e Grupo Sul Mineiro de Poesia (Varginha-MG)

    Brasil, 2012. Nas barbas do organismo brasileiro fiscalizador da extração ilegal de madeira, mais uma horda de madeireiros invade cedo ainda o trecho de mata mantido intocado da Floresta Amazônica, e, com suas serras elétricas, prepara-se para derrubar, até o meio-dia, pelo menos mais uma centena de árvores milenares:

    - Não sei não, Chico... Hoje sonhei com minha finada mãe...

    - E daí, Pedrão? Vai me dizer que nunca sonhou com ela antes?

    - Esse é o problema, companheiro. Quando sonho com ela, é porque está vindo por aí coisa que não presta, meu amigo...

    - Bobagem! Esqueça isso que as encomendas das serrarias estão pipocando! Só hoje, dá pra levantar uma bolada pra cerveja do ano inteiro!

    E Chico certo de ter colocado um ponto final nos dilemas do companheiro, a dupla foi juntar-se aos outros madeireiros clandestinos que tomavam os últimos preparativos para adentrar a mata. Por fim, aquela cena de horrenda dramaticidade - árvores obra de séculos a fio de desvelo da natureza indo ao chão pela ação covarde da mão humana - se repetia em terras que integravam a quase metade apenas da Floresta Amazônica que restara em pé. Árvores e mais árvores derrubadas numa mecanicidade impiedosa, até que, antes do cair da tarde, a expedição já abrira ampla clareira no seio da exuberante mata. Pedrão foi o primeiro a apresentar os sintomas. No acampamento onde pernoitavam, algo distanciado da frente de exploração de madeira, o vigoroso lenhador tossia convulsamente, expulsando em acessos de vômito frequentes golfadas de sangue, enquanto seu corpo ardia em febre. Decidiram trasladá-lo para Manaus, mas muito tempo se passaria até que os médicos descobrissem que aquele quadro virótico inteiramente novo para a Medicina era o resultado da violação pelo homem de um ecossistema nativo e preservado, habitat natural do vírus causador daquele mal contraído no que havia sido o primeiro contato do homem contemporâneo com tal ecossistema. Tanto estavam os médicos longe de compreender a forma de contágio daquele vírus plantado séculos antes no local pelos incas, que pensavam tratar-se Pedrão do vetor da doença, que, agora, vitimava também todo o restante do grupo de madeireiros

    A praga saía agora da esfera de controle dos precários hospitais de Manaus, e, sob a alcunha de peste dos madeireiros, ganhava, através do contágio pelo ar, tanto os rincões mais ermos, como as grandes cidades, e, ao cabo de poucos dias, já era também preocupação das autoridades de saúde de praticamente todas as nações do globo.

    Por fim, num piscar de olhos, conheciam a morte através da peste dos madeireiros dois terços da população mundial, parcela essa da humanidade terrena cujos princípios morais rudimentares poderiam perfeitamente guardar paridade com a personificação da figura do covarde madeireiro, praticando as vítimas do mal, sem exceção, todo um repertório de iniquidades contra a natureza, somente ante seus olhos concupiscentes justificáveis. Em suma, a natureza parecia acordar de um longo torpor, desejando aproveitar o ensejo e recuperar território, voltando a vicejar em vastas áreas que os homens agora abandonavam. Não mais se contentava a natureza com o último reduto, que lhe parecia, por fim, pequeno demais para quem , qual ela, um dia fora capaz de sonhar tão alto.

    continua na próxima semana

     

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    [08.jul.2010] O último reduto
    [01.jul.2010] O último reduto

     

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