Das habilidades de liderança, a mais difícil de aperfeiçoar é a da delegação, já que ela envolve uma decisão que, em alguns casos, pode causar náuseas: a decisão de acreditar que as pessoas ao redor também são capazes e podem, muitas vezes, oferecer soluções melhores do que as de quem as comanda. Desenvolver uma capacidade como essa exige desprendimento, humildade, segurança e uma boa dose de inteligência interpessoal. A delegação cria o vácuo necessário para que os liderados expandam suas capacidades de criação e de inovação, tão logo percebam o espaço que há para ser preenchido. Mesmo assim, há profissionais que, com medo de criar vácuo demais, omitem informações, controlam sistemas de forma solitária, não saem de férias sem deixam bombas armadas e compartilham apenas o que é irrelevante no processo. Não perceberam ainda que o crescimento profissional assemelha-se a uma escada estreita, onde as pessoas sobem em fila. Enquanto a que estiver acima não subir, as demais também não sobem. "Mas para subir, preciso abrir mão desse degrau, ou melhor, dessa zona de conforto?" Sim. O líder que delega abre espaço para que outros se manifestem, questionem problemas e ofereçam soluções, ampliando o senso crítico da equipe. Vez ou outra intervém, mas sempre no sentido de orientar a inteligência da equipe, não de "colocar fulano no seu devido lugar". Ver a equipe apenas pelo ponto de vista de "chefe" faz com que acabem parando no "degrau do conforto", e na segurança que ele supostamente representa. E com isso, esquecem de olhar também para a parte mais alta da escada. Delegar só faz mal quando nos é mostrada, de forma repetitiva, a necessidade de mudança comportamental. Em todos aspectos da nossa vida – pessoal, profissional ou social – quando é preciso rever conceitos, planejar para transformar sonhos em metas, a delegação pode ser fatal. A mudança comportamental pode até ser estimulada, mas seu empreendimento cabe apenas a nós. Delegá-la para fatores externos, vinculando-a à decisão de outra pessoa ou, pior ainda, ao efeito do tempo, acaba nos fazendo transformar o refrão "deixa a vida me levar, vida leva eu" num mantra, dispersando-nos de nossos objetivos. O problema em deixar a vida nos levar, é que ela pode acabar levando a gente para um lugar não muito agradável.
Eduardo Zugaib é profissional de comunicação e palestrante