Olhava o céu e apontava as estrelas, dizendo-me o nome de cada uma, entre tantas: - Dalva, Três Marias e aquelas em figura de cruz formam o Cruzeiro do Sul. Hoje, acredito que ela não pudesse identificar mais do que quatro ou cinco estrelas. Todavia, para mim, era como se conhecesse todo o céu. Como se houvesse vindo de lá e toda estrela tivesse, um dia, sido sua irmã ou vizinha.
Seus setenta e tantos anos me faziam crer que vivera sempre e que até conhecera a estrela com rabo, que fora guia dos Reis-Magos.
Aos sete anos de idade, eu lhe emprestava toda a contemporaneidade do passado. Como todo menino, eu não tinha as dimensões métricas convencionadas pelos adultos. Mas ainda hoje, prefiro as grandezas dos sonhos desproporcionais das crianças, que me deixavam ver, abaixo do grampo de cobre reluzente, que prendia seus cabelos, lisos, brancos e ralos, formando um birote, o grande universo, que eu chamava de vó, enquanto outros a chamavam de Maria Francisca. Este era seu nome cristão ou prenome, pois o nome mesmo, até hoje, não sei, nem me importa sabê-lo. A fidalguia de seu coração, vivido em histórias, abraçava todos os nomes ascendentes: Moura, Moura Salgado, Moura Correa, ou, simplesmente, o Albissú do marido.
A grandeza de minha avó era um universo onde não havia pormenor. Tudo era imenso, grande como ela, que se conhecia as coisas do céu, melhor ainda as da terra. Identificava na textura e na coloração das folhas o nome de cada planta. E como maga, sem solenidade, contava-me como seriam as flores, quando desabrochassem na primavera.
E todas as grandezas de minha avó viviam aprisionadas, como doces na compoteira, na estrutura de seu corpo pequeno de brasileira, não miscigenada, nascida no século do Império.
Se era bonita? Nem sei. Eu era criança. E, nessa idade, não se consegue ver a beleza de uma moça no rosto de uma velha. Pelo menos, foi assim comigo. Sei apenas que todos aqueles seus anos vividos e seu espírito observador lhe davam histórias de verdade e lendas.
Nascera um ano antes da notícia de que os negros estavam livres. Seu avô, senhor de escravos e dono da propriedade que ia das Perobas aos limites das Vassouras, em vertiginosa decadência, perdera a fortuna e a terra, enquanto os negros, aos poucos, partiram para a sonhada liberdade. Assim, minha avó cresceu ouvindo os reclamos entontecidos das tias que não sabiam ao menos vestir-se, sem o auxílio das mucamas que, após a abolição, estavam livres. Só a negra velha Canuta, sem forças para gozar a liberdade, ficara com a família para ser a babá de minha avó. E como babá amorosa que sempre fora, ensinou-lhe palavras e números em Banto. Ensinou-lhe também a admirar o céu, o mesmo céu que sabia cobrir a África livre, de onde um dia, obrigada partira, deixando a família.
E tudo isso eu ouvia, enquanto ela, desconsertando tons, remendava retalhos novos em roupas velhas. E, entre um ponto e outro, também, contava-me e entretecia histórias e mais histórias: Água amarela do pássaro que canta e da árvore que fala; Príncipe adormecido no golfo do mar; Imperador Carlos Magno. Assim, estas e tantas outras histórias povoaram minha infância, que eu queria ter protelado, porque sabia que era doce.
Um dia, ao comando de sua sensibilidade, minha avó foi atraída pelo Cavaleiro da Esperança, que ela via como revolucionário e herói do povo. Aí sua religiosidade permitiu fotos desse camarada, chamado Prestes, entre as estampas de seus santos. E, assim, ela conheceu dias e dias de ilegalidade e clandestinidade, que deixaram marcas visíveis de patas da Cavalaria, em seu rosto já enrugado, em meados do século passado.
Poucos sabem, pois é quase segredo de família, todavia há orgulho neste meu contar: - minha avó só dormia coberta com a bandeira brasileira. Com meus sete anos, eu não entendia nada de pátria ou patriotismo, simplesmente achava a velha muito bonita, dormindo com as estrelinhas da bandeira de bola azul, retângulo verde e losango amarelo.
Aos oitenta e oito anos, sem nenhuma palavra, minha avó começou a morrer. Uma morte com serenidade, demorada em dias, de quem entendia bem da morte, pois já havia morrido um pouco, em cada morte de parentes queridos. Então, os olhos de minha avó começaram a sorrir na intensidade fascinante de estar nascendo uma estrela.
- Minha avó virou uma estrela brilhante.