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  • CRÔNICA - MAURICIO DE SOUSA

  • Sou um rio... (1)

    Nasci hoje.

    Brotei, fiozinho d’água, do meio de seixos e gramíneas.

    E deslizo, suave e frágil, pela encosta, enrodilhando e buscando caminho entre pedras e torrões.

    De passagem, começo a conhecer a linda variedade das folhagens e toco e umedeço as raízes de plantinhas e arbustos.

    Como nasci de noite, brinquei de refletir as estrelas mas agora me aqueço com os raios dourados do sol que vem nascendo.

    E à medida que a luz inunda o pequeno vale por onde me insinuo, sou alimentado por outras nascentes e vou encorpando, virando um pequeno riacho.

    Ops! Senti vida dentro de mim.

    São peixinhos, nadando céleres, brincando de buscar alimento e companhia.

    Mais adiante aninho girinos, rãs e insetos aquáticos.

    As minhas margens se afastam pouquinho mais e já posso ser chamado de ribeirão.

    E vejo, nos barrancos marginais, pescadores buscando tirar das minhas águas alguns dos peixes que eu protejo.

    E há muitos peixes.

    Minhas águas estão limpas, próprias para a vida.

    Tanto que na primeira curva, envolvo com carinho algumas crianças que brincam e nadam, felizes. Passo por elas, animado, para encontrar novas nascentes, fios d’água, pequenos afluentes que me transformam, finalmente, num rio.

    Agora estou forte, bonito, participando orgulhoso da paisagem do vale como uma pincelada azul no meio do verde.

    Ao longe vou pressentindo a aproximação da primeira cidade.

    Sinto uma excitação agradável.

    Vou poder servir minha água pura para os homens, para suas plantações, para seu lazer... e continuar meu caminho, em busca do mar.

    Mas de repente sinto uma coisa estranha, incômoda. Um grande cano me injeta, a partir da margem, uma sopa pestilenta, ácida, que me causa manchas escuras e tonteia os peixes que brincavam no meu interior.

    Tento reagir, misturando o líquido venenoso com minhas águas limpas.

    Mas logo adiante, de outra valeta, escorre sobre mim outra corrente de líquido viscoso, sujo, que me turva ainda mais.

    Começo a me afogar. Começa a me faltar oxigênio. Para mim e para os animaizinhos e plantas que vivem nas minhas águas.

    Me arrasto, doente, pelas margens da cidade e vou recebendo mais e mais agressões de esgotos clandestinos, de fábricas de produtos químicos, de lixeiros...

    Não consigo mais ver o sol.

    Não sinto mais vida dentro de mim.

    Perdi as forças para rolar em busca do meu destino final.

    Vou sendo empurrado, morto, para fora da cidade, deixando um rastro pestilento no ar.

    (Esta crônica continua na próxima semana).

     

    Mauricio de Sousa

    10.03.1999.

     

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