Na última quinta-feira, chovia sem parar. Era um daqueles típicos dias de inverno, com muito frio e um céu escuro, bom para cenário de um filme de terror. Para quem precisa trabalhar, o clima é um mero detalhe, que pode melhorar ou simplesmente complicar de vez a vida de alguém. Tipo da coisa que não passa pela cabeça de quem manda mas não usa o transporte público.
Naquele dia eu tinha uma reunião de trabalho em São Paulo e, já há algum tempo, passei a optar pelos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), em vez do ônibus. Dois motivos foram definitivos nesta decisão: em primeiro lugar, o preço: enquanto o transporte rodoviário custa R$ 12,25, o ferroviário custa apenas R$ 2,65 – isso sem contar que ainda economizo o valor do bilhete do Metrô, que também custa R$ 2,65.
O segundo foi o tempo. Antigamente, o percurso entre os terminais rodoviários Geraldo Scavone, em Mogi das Cruzes, e Tietê, em São Paulo, levava exatos 60 minutos, independentemente de quantas vezes o motorista parasse para pegar mais passageiros. Hoje em dia, com muita sorte, o mesmo trajeto leva 1h30, variando apenas para mais, de acordo com o horário e o dia da semana. O problema da Capital, para quem vem de Mogi, já começa na Ayrton Senna, e não mais na Marginal Tietê, como antigamente.
Na mesma 1h30 que se gasta entre os dois terminais, quem vai de trem faz o percurso entre as estações Estudantes, na Cidade, e Luz, em SP. Tentador, não? Quase.
No quesito conforto, os ônibus levam uma pequena vantagem. Pequena, sim. Os assentos podem até ser mais confortáveis, mas quando a pessoa da frente inclina o banco todo para trás, é preciso respirar fundo. Principalmente se você estiver levando algo em seu colo. Algumas pessoas sentem prazer em jogar a poltrona para trás com força, como se fosse ganhar pontos ao acertar alguém – ou alguma coisa.
No trem isso não acontece e, apesar de a física afirmar que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, a regra encontra sua exceção nos horários de pico. Se o espaço fosse o único problema, tudo bem. Infelizmente, a mesma tecnologia que trouxe benefícios para a humanidade também trouxe alguns problemas, causados por pessoas sem o mínimo de senso de comunidade. Ou que nunca ouviram que "o seu espaço termina quando começa o meu", e vice-versa.
Me refiro aos benditos celulares com MP3 e televisão. Quando utilizados com um fone de ouvido, não há problema nenhum. Vá, use o seu, aproveite este tempo e seja feliz. O duro é que, por incrível que pareça, há muita gente que não usa o fone de ouvido e obriga as pessoas em volta a aguentarem o barulho. E mesmo que você goste muito da música que está tocando, as chances de você pegar asco dela é muito grande em uma situação assim. Exemplo: eu gosto de Legião Urbana. Mas suas músicas nunca me irritaram tanto quanto outro dia no ônibus de volta a Mogi.
Até agora, entretanto, não expliquei o nome deste texto. O trem-fantasma. Bem, o trem-fantasma é o Expresso Leste, que só tive a chance de usar uma vez. Um amigo meu, que pega trem todos os dias, perguntou se existe mesmo. Existe. Mas é tão limitado em horários que nem São Tomé acredita que existe. É algo essencial que, lamentavelmente, mais parece um artigo de luxo.