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  • CRÔNICA - FERNANDO CATELAN

  • A cruz de Santo André

    No ano de 59 d.C. vamos encontrar André entre os gregos, na região do Peloponeso. Leva Nath, já no alto das suas treze primaveras intitulando o menino seu discípulo e futuro continuador. Sabiamente, consciente da sina de apóstolo André por sua definitiva e única missão, Maria Madalena, tão logo provera a amamentação necessária ao filho, jamais outra vez se mostrara sua mãe, coisa que lhe infundia uma dor infinda.

    Vez ou outra haviam cruzado seus caminhos Simão Pedro e Paulo de Tarso, também este último ciente de sua verdadeira identidade, de modo que podia, nos aconselhamentos e no conforto espiritual que recebia dos dois velhos companheiros de apostolado, abrandar o sofrimento que lhe perpassava a alma de mulher, indo mesmo mortificar-lhe a essência da maternidade.

    A idade ia chegando, e, com ela, o apóstolo André conhecia mais e mais a maturidade. Soubera através de Paulo de Tarso ter chegado Jesus com segurança à Índia, lá vivendo em perfeita harmonia com os monges budistas. Meu Reino não é deste mundo! Meu Reino não é deste mundo! Meu Reino não é deste mundo! As palavras de Jesus, talvez ditas em tom de evasiva à guisa de camuflar seu objetivo maior – destronar Herodes Antipas e fazer-se rei, iam cada vez mais se afigurando ao apóstolo André a obstinação de sua própria vida, talvez mesmo das existências de todos que tomaram e tomariam sob seu jugo a causa do Justo. Aprendera, contudo, com Jesus, o que mais exaustivamente ensinava, mesmo àquela sua platéia viciada nos conflitos tragicômicos de seu panteão de deuses farristas:

    - E o que preciso para uma boa vida, apóstolo André?

    - O que sempre precisamos se resume no amará a teu Deus sobre todas as coisas e a teu próximo como a ti mesmo

    Um dia, já no ano de 60 d.C., o apóstolo André cometeu um descuido. Não se banhava nas ágoras públicas destinadas a esse fim, como era costume entre os gregos, mas os anfitriões, dado o fato do apóstolo André ser um judeu, nada de mal viam no fato do pregador fazer seus banhos sempre à noite e em um reservado de sua habitação, situada à beira de um remanso de água de cachoeira. Nath, porém, sem que a mãe percebesse, flagrou-lhe todo um banho e teceu comentários acerca da descoberta do verdadeiro sexo do apóstolo André em conversa tida no dia seguinte mesmo com um amiguinho grego.

    Não demorou muito e a pressão popular obrigou a autoridade romana a agir. Diante da ágora central de Patras um centurião desferiu contra o apóstolo André um golpe certeiro de espada que lhe pôs por terra as vestes, desnudando as formas perfeitas de Maria Madalena aos gregos, que urravam a plenos pulmões:

    - Uma Vênus!!! Uma helena!!! Nossos deuses desautorizam mesmo as sacerdotisas de oráculos a fazerem pregações!!! Crux decussata!!! Crux decussata!!! Crux decussata!!!

    A sentença exigida foi dada. Maria Madalena morreria entre duas toras enormemente grossas que se cruzavam na metade de seus comprimentos. A mártir foi acomodada nua e sentada sobre o vão formado pela cruz, para tanto tendo sido obrigada a permanecer com as pernas fortemente esticadas para baixo, sendo que seus punhos foram posicionados até onde alcançavam seus braços envoltos em canalizes de metal por onde desciam à medida que as amarras que lhes prendiam eram afrouxadas.

    (continua na próxima semana)

     

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