3º lugar no Grande Concurso Cidade do Rio de Janeiro (2011) Taba Cultura, Rio de Janeiro-RJ
- Arlete, não consigo pegar no sono!
- De novo, querido? Há três dias você não dorme direito...
- Sabe, não te contei ainda, mas talvez amanhã eu tenha que levar uma carga muito importante para Varginha...
- Sossega, Ary! Nessa sua vida de caminhoneiro você já teve desafios piores...
Em que pesassem as palavras confortadoras da esposa Arlete, Ary não conseguiu mesmo conciliar o sono. Ainda bem – raciocinava com seus botões – que a companheira não havia se dado conta de que sempre, àquela época do ano, a insônia colhia o caminhoneiro em cheio.
Amanheceu em Piracicaba, onde o sol parecia ter feito sua morada, qual nunca se extinguisse, dada sua presença abrasadora e o longo tempo que permanecia radioso no firmamento. Era hora de Ary tomar seu café da manhã e dirigir-se à Transrodas, empresa onde estava empregado já há vinte anos.
- x –
Entrementes, no Bairro Morumbi, o mais suntuoso de Piracicaba, Joca e Quinzinho, respectivamente pai e filho e proprietários da Transrodas, teciam comentários em torno de mais uma de suas maquinações, apenas outra dentre tantas que, da noite para o dia, haviam transformado sua empresa em uma verdadeira potência, uma das grandes forças do setor empresarial piracicabano, e, sem exagero, figurando entre as lideranças em sua área de atuação em todo o Brasil:
- Pai, hoje é o dia de rendermos tributo a nosso Deus Mamom
- Você acha que eu ia me esquecer disso, Quinzinho? Nesse tempo todo é o despacho que fazemos a cada ano nossa garantia de prosperidade, ou faltam negócios à Transrodas?
- Não, pai, de maneira alguma! Jamais têm faltado negócios! Mas fico aqui pensando na possibilidade do tal caminhoneiro faltar ao sorteio...
- Se isso acontecer, Quinzinho, o fulano está automaticamente na rua demitido por justa causa. Vai morrer de fome, porque não arranja mais trabalho em lugar nenhum!
- x –
Quando os patrões chegaram à sede da Transrodas, o alto-falante soou incontinenti conclamando os caminhoneiros a comparecerem ao pátio central da empresa Todos estavam lá. Ninguém havia faltado, inclusive nosso temeroso Ary, uma vez que todos ali conheciam a tirania de Joca e Quinzinho, seus mandatários. Quinzinho, ladeado pelo pai e sentindo-se um autêntico ditador, postado que se encontrava na sacada da sede administrativa da Transrodas enxergando os funcionários postados diante dele bem abaixo, como se fossem minúsculos pontos, tamanha a altura em que a sacada se elevava do chão, foi logo disparando em uma fleuma denunciada por todos ali:
- Vamos proceder ao sorteio sem muita demora. Como vocês bem sabem, o sorteado se incumbirá de levar a oferta da Transrodas a Mamom.
Enquanto viam Seu Joca enfiar a mão em uma urna e dela tirar um papelete dobrado, alguns caminhoneiros até choravam, havendo dentre eles aqueles também que invocavam sua fé a fim de que o sinistro não lhes viesse de roldão. Agora, o momento era ainda mais angustiante, já que Seu Joca passara a Quinzinho a tarefa de desdobrar o papelete e enunciar o nome do sorteado, coisa que não hesitou nem um pouco em fazer:
- O sorteado é o Ary!!!
continua na próxima semana |