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  • CRÔNICA - FERNANDO CATELAN

  • 13893

     Nestor mergulhava em doces reminiscências, alheio ao agito do entra-e-sai de vizinhos, amigos e parentes que apareciam na acolhedora casa da Vila Lavínia para testemunhar os últimos momentos de vida de Ana. Em dado momento, o rapaz retirou-se da sala e foi até a varanda na frente da casa. Pousando o olhar na rua mutilada pelo asfalto, que, no seu estado virginal, fora de terra e registrara seus passos pelos vastos campos que outrora existiram no local, Nestor imediatamente foi sendo invadido por uma nostalgia irresistível. Oculto atrás da pilastra da varanda, permitiu-se chorar um pranto sentido, e, de repente, aquele universo disforme de asfalto e concreto que se descortinava aos seus olhos turvos deu lugar às paisagens de sua infância, paisagens que sua avó Ana certamente levaria também na retina da alma para sua nova morada etérea num dos muitos planos da criação. Bastou cerrar as pálpebras por breves instantes, e Nestor reportou sua alma cansada, violentada pelas mesmices do progresso que feriam sua idiossincrasia, àquelas tardes perdidas no passado em que o céu era de um azul anil e o vento que soprava forte pelas campinas envergando as touceiras de mato verde impelia o vôo das pipas que outras crianças, magistralmente, ao contrário dele, empinavam pelos horizontes desfraldados da quase eternidade de dias que ainda lhes restava viver. Ah, como sua avó Ana era zelosa e preocupada! Bastava o menino Nestor desaparecer por alguns instantes das vistas da mulher e lá ia ela à cata do neto, vasculhando rua por rua do bairro, embrenhando-se nos matagais que eram também asilo de animais peçonhentos até encontrá-lo, às vezes em meio a uma pelada que não hesitava em interromper surrupiando a bola dos moleques se era hora do menino tomar banho.

    Visto que os transeuntes passaram a importunar seu sossego indagando-lhe a todo momento sobre o estado da avó, Nestor deixou a varanda e voltou à poltrona na sala. Àquela época, Lúcia, sua mãe, freqüentava em companhia dele e do marido João Manoel o Centro Espírita Vereda da Paz, dirigido pelo Sr. André Mauro. Assim, imaginando que a sogra se referia a esse dirigente, Lúcia abandonou por alguns momentos seu posto junto à enferma e dirigiu-se à sala, indo ter com o marido:

    -  João Manoel, sua mãe está pedindo para você chamar o Seu André Mauro...

    -   O Seu André Mauro?. Mas minha mãe nunca foi de pisar nem em igreja!

    - Vamos, pai! Vamos buscar o Seu André Mauro! Pode ser que vovó esteja necessitando desse auxílio para fazer a travessia... – ponderou Nestor

    Lá foram pai e filho, que a vida tornaria companheiros inseparáveis no velho automóvel da família, rumo ao centro espírita. Enquanto dirigia o veículo pela sucessão interminável de morros e ruelas escuras de bairros da periferia de Mogi das Cruzes, Nestor, sem dizer uma só palavra ao genitor, ia pensando nos infortúnios que colhera desde que, em 1991, uma grave enfermidade mental o acometera. Recordava-se dos quatro anos vividos em companhia de sua Flávia, que, tendo vindo completar seus estudos na mesma universidade em que Nestor estudara e lá o conhecido, era de uma beleza tão deslumbrante que, ao seu passar, os corações dos jovens da provinciana Mogi das Cruzes fremiam taquicárdicos. Quando tudo parecia caminhar para um casamento com a pompa que mandava o figurino, Nestor foi surpreendido pela descoberta da traição de Flávia.

    continua na próxima semana

     

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