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  • CRÔNICA - GRACILA GRECO MANFRÉ

  • Cartão Postal

    Há um pensamento chinês que diz que antes de nos aventurarmos mundo afora é aconselhável que tenhamos dado ao menos uma volta em torno de nossa própria casa. Nada mais prudente que este conselho já que quando saímos de nossa cidade ganhamos o olhar do viajante. E este é um tipo de olhar tão especial que é capaz de trazer à tona um emaranhado de informações que costumam habitar por longos anos em nosso interior sem sequer percebermos sua presença.

    Quando alguém "de fora" chega a uma cidade, seus sentidos procuram os aspectos que distingam esse novo lugar tanto de outros que conhece quanto de sua própria cidade, mas, ironicamente, também procura e espera encontrar alguma referência que o remeta ao seu próprio espaço, ao seu lugar de origem. Sendo viajante, espera ter novas experiências e sensações e, ao mesmo tempo, tem a esperança de não se afastar sobremaneira de tudo que o faz "ser" de seu lugar. Tanto é assim que uma das primeiras perguntas que fazemos ao conhecermos alguém é "De onde você é?". E na resposta de alguns incide a sombra da indefinição.

    Com o crescimento das cidades, entretanto, tem surgido o problema de não nos reconhecermos em nosso próprio espaço. Vista de longe e do alto, nossos olhos seguem o contorno macio da cidade e sentem que cada curvatura de seu desenho, cada saliência na paisagem é familiar e aconchega a alma. A cidade que nos espera, de braços abertos. De perto, a história é outra. Em meio ao labirinto das ruas, avenidas, becos e encruzilhadas o que impera é o estranhamento. A cidade cresce, sem fronteiras, e o lugar que seria de aproximação, de estreitamento das relações sociais, transforma-se em interrogação. Há bem pouco tempo atrás, conhecíamos ainda a vizinhança e encontrávamos rostos familiares pelas ruas do centro. Hoje, raras vezes.

    É bem verdade que este é mais um lugar da vida moderna, mas é o lugar onde a vida acontece. Os sonhos, ideais, frustrações de cada um também caminham pelas mesmas vias da cidade. Todavia, não consigo me identificar com gente cada vez mais grotesca e mal educada. Com paredes pichadas, desleixo com o patrimônio público, problemas insuportáveis de trânsito, dos transportes coletivos, sujeira nas ruas, bato o pé diariamente, como cidadã. Por quê o ilegal é a forma, por excelência, de organização da sociedade urbana no Brasil? Mas e as pessoas? A alma da cidade? Esse processo de educação, meus amigos, demanda muito tempo e nenhum governo parece querer estreitar os laços que devem unir planejamento, gestão e desenvolvimento urbano... Até quando direito e gestão urbana serão questões dissociadas?

     

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