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  • CRÔNICA - MAURICIO DE SOUSA

  • O pelicano mentiroso

    Era uma vez, um pelicano muito bonitinho. Bico muito fininho, penas brancas, pretas, algumas amarronzadas, vôo elegante, patinhas até que aceitáveis para a classe de aves marinhas que habitava aquele pedaço da costa do Pacífico...

    Mas o tal pelicano tinha um defeito. Mentia demais.

    Sempre vinha com uma história de que tinha saído para pescar quando topou com o maior peixe. Tão grande que escapou do seu biquinho. Não cabia ali.

    Os outros pelicanos viviam na gozação em cima dele.

    Além disso, ficavam amolados porque o tal mentiroso, já que não conseguia trazer os tais grandes peixes, sempre estava a fim de filar um peixinho do bico de algum pelicano distraído. E eram grandes discussões e corridas.

    Até que o Senhor dos Mares, que tudo vê e tudo sabe dos seus domínios mas às vezes é meio distraído, ia passando pela praia onde o pelicano se queixava, de novo, da perda de um gigantesco peixe. Acreditou na história e resolveu ajudar o pobre coitado faminto.

    Com o poder de sua magia, gerada na força das águas dos sete mares, transformou o biquinho do pelicano num senhor bicão, caidaço à frente da cabeça, deselegante, desengonçado mas... que atenderia aos objetivos. O peixe que caísse no bico da ave, pequeno ou grande, não conseguiria mais escapar.

    Era o fim das queixas do pelicano... mas também o fim de sua boa vida.

    Agora, mesmo, é que ninguém lhe daria nem um rabinho de resto de peixe.

    E o mentiroso passou a dar rasantes na baía mais próxima, sempre trazendo algum peixe no bico, para tranqüilidade de seus companheiros de raça...

    Até que os outros pelicanos, percebendo a facilidade da pesca com um grande bico, se rebelaram contra o privilégio: por que só o mentiroso ganhara aquele bicão prático, cômodo, um verdadeiro guarda-comida?

    Como se explicava um prêmio ao pecador, ao mentiroso?

    Juntaram-se e foram até o Senhor dos Mares reclamar que queriam bicos iguais ao pelicano transformado.

    O Senhor dos Mares até que tentou convencê-los a mudarem de idéia. Alegou falta de tempo para transformar tantas aves; apontou para o lado estético: os pelicanos invejosos topariam ficar com um bico tão esquisito, parecido com o nariz do Pinóquio das histórias de fadas?

    Mas tudo em vão. A pelicanaiada queria porque queria ficar com o tal bicão desengonçado.

    Só restou ao Senhor dos Mares concordar com a grande mudança. Afinal, muito tempo atrás, houve uma história semelhante que resultou nos diversos tipos de tucanos que conhecemos nas matas.

    E hoje, pelos mares, pelas praias, pelos piers do mundo inteiro, os pelicanos ostentam aquele bico esquisito, deselegante mas que, sem dúvida, significou uma economia tremenda de tempo e energia na captura da "comida".

    O mentiroso? Dizem que continua o mesmo. Agora fingindo que tem um peixão escondido nas dobras inferiores do seu bicão e desafiando os outros pelicanos a adivinharem que espécie ele caçou. Geralmente aposta um peixe. E quando todos erram, porque não há peixe nenhum no seu bico e sim um pedaço de madeira recolhido da areia, o malandro exulta, dança, brinca... e leva o troféu para comer longe dos outros.

    Mas o Senhor dos Mares está de olho nele.

    Desconfiou que foi tapeado e deve estar planejando até mesmo alguma destransformação no mentiroso.

    Mas isso fica para uma próxima história.

     

     Mauricio de Sousa

    Los Angeles, 7 de novembro de 2000.

     

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