O animalzinho que passou correndo nem você viu. Mas ouvimos seu tropel, baixinho. Era pequeno. Talvez um rato ou um gambazinho. Se o vento virar para cá, vamos tentar descobrir pelo cheiro dele.
O ruído abafado, lá em frente, me diz de que lado fica a estrada. Hoje, não está tão movimentada. Deve ser porque é domingo. Não há tantos caminhões passando.
O avião que ouvi é um desses grandões, voando a mais de dez quilômetros de altura. É a altitude ideal para economizarem combustível.
E se sinto cascalho quando ando, estamos perto da estradinha que vai dar na chácara onde moro. É só virarmos para o lado em que o sol nos pega no rosto e vamos chegar lá num instante.
Sinta o cheiro dos eucaliptos à sua esquerda, Zé. E o vento soprando macio por entre as folhagens, fazendo um barulhinho gostoso. Do outro lado, sinta o perfume de goiabas maduras. As goiabeiras estão carregadas e as bicadas dos passarinhos destamparam o cheiro que chega até aqui, forte.
Se a gente andar mais um pouco, arrastando os pés para ouvir e sentir o cascalho, não vamos desviar para a grama da beirada da estradinha e perder a direção. Tem um pontilhão logo adiante. O barulho da água escorrendo no riacho mostra que estamos perto.
A chácara vem em seguida, depois da curva.
E... já sentiu o cheiro do café que a mamãe acabou de coar? Chega até aqui. Gostoso.
Hum. tem bolo de fubá, também.
...
Zé... que barulho foi esse?
Você caiu? Bateu no quê?
Agora, você me pegou com esses barulhos diferentes..."
"Há, há... já estou levantando, Tonico. Não foi nada.
Estava treinando pra sentir, pra ver sem enxergar como você faz.
Errei no caminho. Não percebi o fim do cascalho e bati numa árvore.
Mas vou continuar treinando.
Vamos atrás do cheiro do café?"
"Vamos. Que a mamãe já começou a chamar a gente.
Já estamos chegando, mãe...
Tem coisa mais bonita do que a mãe da gente, Zé?"
Mauricio de Sousa
13 de junho de 2003 |