Outro dia, pensando em coisas antigas e guardadas, lembrei-me de uma história do meu neto mais velho, quando ele tinha 5 anos de idade, em 1991.
Lá em casa, temos um canto onde estão encerrados antigos objetos pertencentes à família: - máquina de escrever, costurar, fotografar. Escrivaninha, telefone, canivete, talher, prato, bibelô, álbum de figurinhas, discos, livros e tantas outras tranqueiras guardadas há décadas.
Um dia, por entre essas antiguidades, esse meu neto destacou:
- Que isso, vô?
- Um porrete.
Quis saber a serventia e expliquei. Alonguei a conversa e contei-lhe a história de que o porrete havia sido do meu octavô, foi do meu heptavô, do hexavô, pentavô, tataravô, bisavô, depois do avô, meu pai e eu.
Então, ele afirmou que herdaria o porrete, por ser o primogênito dos netos. Tentei argumentar a favor dos meus filhos, mas ele não aceitou. Era dele e estava acabado e ficou por isso mesmo.
Alguns dias depois, cheguei a minha casa com meu primeiro computador. Como ele também não conhecia essa maravilha da modernidade, ficou encantado com a competente máquina, que adquiri. Logo, quis saber o que era, a utilidade e como funcionava. Muita pergunta para mim que, até hoje, uso o computador como mera máquina de escrever. Mas ele, encantado como estava, me fez a seguinte proposta:
- Vô!
- Quê?
- Não sou seu neto preferido?
- Preferido e único.
- Você não disse que o porrete tem de ser primeiro dos teus filhos, pra depois ser meu?
- Falei, porque tem de passar de uma geração para outra.
- Então, vô...
- Então o quê?
- Vamos fazer assim, o porrete fica pro teus filhos e esse computador fica pra mim.
- É? – arrisquei perguntar.
- É! – afirmou-me com convicção.
Eu não ia ficar discutindo a minha partilha, por isso concordei.
Conclusão: há anos, aquele computador foi substituído e jogado no lixo e o porrete continua lá. Espero nunca usá-lo.