Caro Ornellas
Agradeço pela atenção de haver me informado a respeito do "Lobo Mau" e em agradecimento, envio "Chuva de Sopa". Caso esteja dentro do espírito que norteia a sua página dominical, pode publicá-lo que me dará muito prazer.
* Hoje acordei com uma forte coceira nos dedos e tratei logo de saber a razão. Não precisei ir muito a fundo para atinar com a causa da comichão. Sabe o que era? Acredite se quiser. Era vontade de escrever sobre mogianidades gostosas doutros tempos. Não que as de agora sejam insossas ou amargas. Nada disco, ou melhor, nada disso, mesmo porque disco era com a Livroeton. Mas, Nelson Marques fechou a loja e foi curtir sua preciosa coleção de filmes.
E os livros e cadernos? Bem, esses o Marques deixou por conta do Bazar Urupema, na Praça Dona Firmina Santana, que também já não está mais lá. Teria ido tomar um esperto café com leite na Leiteria Glória?
Continuo andando pelas veredas do passado e faço uma parada no Foto Brasil, na Rua Braz Cubas, 78-A, onde se acham à minha espera o Lanfranco e o Loureiro, para um retrato de corpo inteiro, daquele bem caprichado. Epa! Não se acha mais aqui. Foi fechado!
Pelos lírios do campo do Veríssimo! Ai que dor de cabeça dolorida. Vou à Farmácia Nossa Senhora Aparecida pedir ao José B. Batalha que me veja uma Cibalena. Que pena, estou muito triste, a farmácia não mais existe.
Ai Jesus, o que faço? Os sapatos já me apertam os pés! Já sei, vou a Casa Eduardo e peço ao Poyares que me venda um par fiado. Ai de mim, o que será? A Casa sumiu de lá!
Pelas águas do Tietê! Nada do que preciso acho, mas que diacho! Será que desta vez vou dar sorte? Preciso reformar o barraco. Vou à Ricardo Vilela, 122, falar com o Salvador Boucault, que me mande umas mil telhas da Cerâmica São Caetano, da qual é representante. Mais uma desilusão. Cadê Boucault, meu irmão?
Já que estou aqui na Vilela, vou dar uma esticadinha até a Casa Moreno, ali no começo da Deodato, para comprar na mão do sr. José Moreno Rueda, umas camisas Volta ao Mundo, dois chapéus: um Prada outro Ramenzzoni, umas gravatas Milano e um cinto Lazco, afinal, preciso marcar presença lá na Praça Oswaldo Cruz. Pela Ceci do Peri! Seu José mudou daqui!
Sabe duma coisa? Já estou cansado de andar. Vou tomar um aperitivo e refrescar a cabeça ali no Bar São Jorge e trocar um dedo de prosa com o José Ignácio Bicudo. Chego quieto e saio mudo. São Jorge fechou o bar, montou no seu cavalo e saiu a galopar.
Viro as costas e sigo em direção a Padaria Central, do Carlos Costa, na Paulo Frontin. Pobre de mim. Na porta está escrito: não tem pão, faz um tempão. Fechamos.
De todas essas mogianidades só restaram as saudades. Quanto a mim, que não as vi, só me resta lamentar e dizer o que disse o marinheiro azarado: Da proa fui para a popa, e da popa para o chão. E se houver chuva de sopa, vou ter um garfo na mão.
Cordiais saudações do
Gê Moraes
gemoraes@ig.com.br