Nas duas semanas compreendidas entre os dias 17 de julho e 2 de agosto de 1945, três senhores sentaram-se com alguma frequência ao redor de uma mesa de 12 lugares, redonda e sempre coberta por uma grossa toalha vermelha. No último encontro, diante da paisagem exuberante de bosques e do Lago Jungfernsee em pleno verão que se estendia a partir da janela, assinaram o Acordo de Potsdam. E selaram, assim, um futuro sombrio para a Alemanha.
Hoje, o Palácio Cecilienhof, onde o ditador soviético, Josef Stalin, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, e o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill (depois substituído por Clement Atlee) retalharam o território do país e semearam a Guerra Fria, foi transformado em um charmoso hotel de campo. São 41 quartos com decoração inspirada na realeza, além de um museu aberto também a não-hóspedes. Uma improvável metáfora da mudança de rumos pela qual passam as cidades que um dia fizeram parte da antiga Alemanha Oriental.
Este novo perfil fica evidente, à primeira vista, no patrimônio arquitetônico em acelerada recuperação. E se estende à vida cultural, às opções de lazer, gastronomia e hospedagem.
Cercadas por florestas e parques, as cidades da porção mais ao leste do território alemão deixaram de lado o passado difícil, marcado por bombardeios, repressão e o muro. Trataram de se reconstruir e recuperar o orgulho. E buscam mostrar ao mundo o seu melhor.
Em Potsdam, cidade vizinha de Berlim onde ocorreu a fatídica conferência entre os presidentes, a Ponte Glienicker, na principal entrada do município, virou símbolo da nova fase. Antes bloqueada pelo muro e ocupada por soldados encarregados de impedir a população de passar de um lado a outro, ela se tornou o palco por excelência das festas e manifestações populares.
Antigos redutos da arbitrariedade socialista assumiram novas vocações, como a antiga cadeia usada para tirar de circulação opositores do governo nazista que foi transformada no Museu de Potsdam. Trata-se de uma visita perturbadora, mas interessantíssima. Das celas aos cubículos de interrogatório, tudo está preservado. O objetivo, dizem os guias, é mostrar às novas gerações o valor da liberdade Entrada: 3 euros.
Outro exemplo é o arborizado bairro Neuer Garten, atual endereço mais elegante para morar em Potsdam, mas com passado marcado pelo vaivém dos oficiais da KGB, que tinham ali uma de suas sedes. No ponto mais alto do bairro está o Belvedere do Monte Pentecostal, um belíssimo palácio neorrenascentista erguido em meados do século 19 pelo rei da Prússia, Frederico Guilherme IV.
O local foi construído como clube de campo, um espaço para se dedicar às artes, à filosofia e à música. Contava até com um cassino - e nenhum quarto. Sob dominação nazista, foi abandonado para que os habitantes não subissem ao mirante no ponto mais alto da construção, com 73 metros, de onde se enxergam até os limites de Berlim. A restauração terminou em 2005. A visita, que começa com a travessia de um túnel verde custa 3,50 euros por pessoa.
Natureza é o forte de Potsdam e de todo o Estado de Brandenburgo, do qual a cidade de 145 mil habitantes é capital. Cercada por nada menos que 240 reservas naturais - 30% do território do Estado - e uma rede de lagos navegáveis, foi escolhida como refúgio pela nobreza da Prússia nos séculos 17 e 18.
A herança desse período são mais de 500 palácios, que vêm sendo restaurados para visitação ou transformados em hotéis.