Da Maysa para a Felícia você teve de desconstruir a imagem de uma personagem muito forte, quase seu oposto. Como foi esse processo?
Tive bastante tempo de intervalo entre a Maysa e a Felícia. Agora achei muito bacana a Globo me dar a oportunidade de fazer uma personagem que é o contrário da Maysa. Gosto dessa diversidade de papéis, da possibilidade de viver pessoas absolutamente diferentes. É uma dádiva conseguir fazer isso na tevê. Observo fotos minhas como Maysa e vejo como a expressão do meu rosto estava diferente, como fui absorvida por ela.
Logo após "Maysa" sair do ar, o autor Manoel Carlos disse que o ideal seria que você permanecesse um bom tempo longe da tevê. Esse distanciamento foi uma opção sua?
Estava à disposição da emissora o tempo todo. Achei ótimo ter esse descanso porque passei um ano em uma mistura total entre mim e ela. Mas não me incomoda que as pessoas não se esqueçam da Maysa quando me olham. Felizmente fiz um trabalho que as pessoas não esquecem. Isso para mim não é um problema. Acho lindo! Iria ficar triste se fizesse a Maysa e, em duas semanas, ninguém lembrasse. Seria um fracasso. Vou ficar chateada se as pessoas olharem a Felícia e disserem: "Totalmente igual à Maysa, ela está se repetindo!". Espero que tenham a mente aberta para me receber como outra personagem.
O que mais chamou sua atenção na Felícia?
Ela ser uma mulher comum. Fiz testes para ganhar esse papel e provar que eu não era a Maysa (risos). A Globo estava procurando uma pessoa que pudesse passar essa doçura que ela tem e duvidaram que eu conseguisse. Tive de provar que tinha outras coisas a oferecer. O interessante na Felícia é que existem milhares de mulheres como ela no mundo, que vivem dentro de uma concha, que não acreditam nos seus potenciais, que se isolam e não tomam as rédeas da sua vida.
Mas ela muda radicalmente e se apaixona pelo Totó, do Tony Ramos. Como vai acontecer essa transformação?
Vai ser bem gradual. Acontece uma sucessão de coisas que culmina no momento em que ela se apaixona. Ela realmente muda muito, vai ficar com outro visual, tudo vai se alterar lá na frente. Ela vai se dar conta que tem de fazer alguma coisa por ela e não pode continuar levando essa vida. Mas ela não vai "dar a louca". Vai se soltar aos poucos. Gosto de trabalhar na sutileza. Criei um painel na minha cabeça com várias mulheres comuns que ia observando pelas ruas, em filmes. Fui armazenando tudo no meu imaginário.
E como tem sido a reação do público com essa personagem tão introspectiva?
As pessoas me dizem que me achavam a Maysa e tem gente que tem dificuldade de me ver quietinha. Costumam dizer: "Quero ver você quebrando tudo, bebendo, enlouquecendo" (risos). Dizem que estou numa personagem muito apagada, mas ela é essa mulher sem brilho. Ela vai ter brilho lá para a frente. Às vezes, até coloco uma pitadinha de humor nela, um jeito de olhar engraçado, mas ela transita no melodrama mesmo, não tem jeito.